Coluna: “O Melhor da Vida” – O jogo precisa de acréscimos

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(*) Marcus Vinicius Batista

O médico não precisou dizer nada depois de me devolver o laudo. Ele sabia do que estávamos falando. Como eu, jogou futebol a vida toda e, às quintas-feiras, jogávamos em campos diferentes do Brasil Futebol Clube, tradicional agremiação de Santos. Quando ele escolheu o silêncio e colocou a mão no meu ombro, sem coragem de me olhar nos olhos, tudo ficou tão claro quanto um texto bem escrito, como uma fotografia retocada em computador.

Sai do consultório e não conseguia voltar para casa. A sentença era clara: “Você terá dificuldades para correr, principalmente com os movimentos de agachamento. Joelho é fundamental para goleiro. Jogar futebol só de vez em quando. Bem de vez em quando. Ao emagrecer, sua redução da gordura expôs toda a artrose que, no caso, é severa. Você não tem idade para prótese. Até porque, se operasse (e eu sou contra!), você só poderia andar. Jogar, nunca mais!”

Resolvi parar no Sevilha, uma lanchonete do Gonzaga. Pedi a vitamina de sempre e o mistinho deles, o melhor da cidade. Quando me sentei, o celular saltitava no bolso. Beth, minha esposa, queria saber como fora. Era o segundo médico. O primeiro, bem experiente, confirmara a artrose só de tocar no joelho. Ele, que jogara bola comigo na adolescência e depois aos 40, abriu o exame só para confirmar o diagnóstico.

Não conseguia digitar nada. Beth me ligou na sequência. Apenas chorei. Aquele choro de silêncio, daqueles que você não sabe bem o que está sentindo. Trocamos meia dúzia de frases e ela me pediu: “Venha para casa! Vamos conversar melhor!” Sabia que vivenciava um luto.

Não jogo futebol há 13 meses. Da última vez, suportei 15 minutos de partida. Não conseguia me levantar sem apoio se tivesse que cair para fazer uma defesa. Ou os dois braços no chão ou segurava a bola. O joelho direito, que serviria de alavanca para um canhoto, entrara em colapso. Mal dobrava. A dor crescia a cada lance. Não tinha reservas naquela noite de julho. Não suportei e pedi para sair. Um zagueiro virou goleiro no meu lugar. O time ficou com um a menos. A conversa com o médico aconteceria 15 dias depois da última partida.

Eu havia emagrecido 20 quilos durante o ano e me tornava também uma máquina de caminhar. Usava até aplicativo para contabilizar um monte de dados. Voltava do trabalho, levava filho na escola, realizava tarefas cotidianas a pé. A média diária era de 10 quilômetros.

Andar é indescritível como higiene mental. Sempre há algo de novo na cidade. Lugares, pessoas, situações. As caminhadas já eram motivo de conversa com colegas de trabalho. Trocas de experiências. Até que veio uma bolha em um dos dedos do pé esquerdo, em setembro. A escolha da pomada errada, que evitou que a infecção se alastrasse, mas a prendeu no dedo, e o diabetes me levaram ao hospital. Entrei em cirurgia 36 horas depois e meu dedo ficou por lá.

A amputação não causou tantos estragos quanto o joelho em petição de miséria. A amputação veio como uma sobremesa diante de um pacote de perdas. O joelho é a ausência que permanece, com a qual se convive contrariado, que te chama às pontadas quando está frio, que falha quando se carrega peso numa escadaria. O joelho não permite jogar futebol. O dedo perdido somente provocaria adaptações. Nada que uma palmilha não resolvesse.

O futebol esteve presente em toda minha vida. Quando era criança, o time da rua. Aos 10 anos, o primeiro teste no time da escola. Até os 18 anos, futsal e futebol de campo na obsessiva tentativa de ser jogador profissional. Com a faculdade, vieram a várzea e os jogos universitários (foram nove anos de competições, em três fases da vida, a última em Psicologia, aos 44 anos). Times de empresas, de zeladores da rua do meu pai, seleções de escritores, peladas de society duas vezes por semana, de manter uniforme de jogo em porta-malas de carro durante viagem.

O futebol esteve presente até no meio acadêmico, quando me tornei professor universitário há quase 18 anos. Orientações de trabalhos em cursos de Jornalismo e História, por exemplo. A exceção foi a escrita. Como jornalista, só passei a escrever sobre o assunto aos 35 anos e, mesmo assim, crônicas, sem qualquer envolvimento com a reportagem, neste caso. Sentia-me satisfeito como leitor, ouvinte, espectador.

Este esporte me ensinou tantas lições que, de maneira consciente ou não, serviram para as minhas atividades profissionais. A importância de se trabalhar em equipe para que os resultados aconteçam. A necessidade vital de se preparar, de se estudar os próprios erros, o adversário (sendo você mesmo ou não), o treino que repete e te alerta para as situações de jogo. São somente dois exemplos de como o futebol é bem mais denso do que uma alegoria cultural, um objeto histórico ou uma reflexão antropológica. O futebol é uma metáfora da vida, da minha vida, em diversos cenários.

Nada disso passou pela minha cabeça quando recebi a notícia em meados de 2019. Desconfio que estas questões orbitaram pelo inconsciente durante muitos anos e emergiram diante (e por causa) da tempestade que se instalou. O choro silencioso na lanchonete me soa como a rachadura que cutuca lentamente o concreto da represa na iminência de ruir.

Coincidência ou não, intensificou-se em mim o distanciamento do futebol. Transformei-me em um espectador de melhores momentos na Internet. Os jogos ficaram chatos, é verdade, mas me parecem quase insuportáveis no contexto nacional.

Por outro lado, cresceu minha paixão pelas histórias em torno do jogo. Os personagens, os causos, as sagas, as batalhas épicas, as reviravoltas se manifestam de forma aguda no mundo dos times pequenos, no sofrimento de quem precisa de muito para vencer. O jogo virou um carrossel de eterno 1 a 0. Assim, renovei meu amor pela Portuguesa Santista e passei acompanhar, por exemplo, o Suderland, time da terceira divisão da Inglaterra depois de ver uma série documental no Netflix. Os grandes jogos só exalam tédio, exceto no resumo da ópera.

O futebol é fascinante e trágico pelas ironias que constrói. Às vezes, levamos um campeonato todo para entender o que ele diz. Às vezes, o recado nasce como um gol relâmpago, com menos de um minuto de partida.

O Brasil Futebol Clube foi o primeiro time de futebol de campo que joguei. Seu campo de society pode ter sido a despedida não oficial. Quem sabe o juiz – e meu corpo – me concedem mais uns minutos de acréscimos?

(*) Marcus Vinicius Batista é jornalista, professor universitário e escritor

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