Coluna: “O Melhor da Vida” – O gosto das coisas

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Zé Petit Rodrigues (*)

Há quanto tempo você não pega aquele tomate apetitoso e devora-o sem sal ou qualquer outro tempero? Uma pergunta simples e uma resposta surpreendente: a maioria das pessoas, especialmente as mais jovens, respondem que nunca fizeram isso. Mas comem tomate e outros legumes e verdura, em saladas sempre bem temperadas.

Azeite, sal, vinagre e outros temperos prontos são largamente utilizados, mascarando o verdadeiro gosto das coisas. Ao caprichar no tempero, estamos, de fato, assumindo que gostamos mesmo é do tempero, pois todos os produtos ficam com o mesmo gosto.

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É bem provável que não suportemos o gosto de uma cenoura crua, por exemplo. Preferimos o do vinagre e tome vinagre em tudo. Muito azedo? Variamos com o balsâmico, que incrementa o sabores, é mais adocicado, mais leve e daí em diante.

Nada contra os temperos, já que a até a vida não sobrevive sem alguns deles. O que não entendemos é como a gente disfarça tudo: tomamos bebidas supergeladas, com menos gosto e comemos coisas excessivamente salgadas ou doces. Uns para disfarçar defeitos, outros para esconder sabores que não gostamos.

Nesse excesso é que está o pecado. Ele traz problemas de saúde, como aumento dos casos de hipertensão, diabetes e outras doenças que vão se agravando justamente por conta desse consumo exagerado de produtos que disfarçam o verdadeiro sabor das coisas.

Há muitos anos ouvi o comentário de um indígena que trabalhava como garçom em Itanhaém de que o índio não suava porque não comia sal. Pensei naquilo e comecei a abolir o sal de minhas saladas. Continuo suando, mas comecei a descobrir que por si só os legumes têm um ótimo sabor.

Aboli também os que eu não gosto e hoje sinto prazer ao devorar uma cenoura inteira. Ou um tomate. Ou um talo de alface americana.
Vamos lá, que ninguém é de ferro. Quando coloco os vegetais num prato, raramente dispenso o azeite, talvez até por tradições espanholas. Mas gosto muito do azeite puro e acho que ele não chega a mascarar o sabor das coisas. Diferente do vinagre ou do limão, que toma conta de tudo e se sobressai, anulando o resto. E, nesse caso, o resto deveria ser o principal, isto é a salada é composta basicamente de legumes.

Acho que a gente deveria hoje mesmo assaltar a geladeira e saborear um belo tomate antes que ele seja contaminado pelo vinagre. Comer um mamão sem açúcar, aproveitando a doçura natural, mesmo que não seja na medida em que nosso sonho açucarado nos impõe.

Redescobrir o gosto das coisas vai acrescentar muito em nossa vida. Na outra ponta, vai reduzir riscos de saúde e tornar mais suaves os penosos regimes decorrentes dos excessos que todos cometemos.

(*) Zé Petit Rodrigues é jornalista

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