Coluna: “O Melhor da Vida” – O doce e o amargo

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(*) Vladir Lemos

Peço um café expresso. A atendente sorri, protocolar. O pedido nada tem de especial. É trivial ao extremo. Ela dá as costas e vai cuidar do trabalho. Quando volta tem o mesmo sorriso. Imagino que tantas são as vezes em que repete o gesto que ele já ganhou algo de instintivo, mecânico até. Agradeço, gentil. Mas ao aproximar a xícara da boca vejo no mesmo instante o rosto da moça se transfigurar numa expressão do mais puro espanto. O gesto vem seguido de um aviso urgente em alto e bom som : está sem açúcar! Aí é a minha vez de sorrir agradecido pelo cuidado, mas sem sobressalto.

É assim, desse modo digamos, cru, que aprendi a apreciá-lo faz mais de vinte anos. No início não era a preocupação de dar à tão nobre bebida o tratamento merecido. Essa sensação só desfrutei muito tempo depois. Era um desdém ao onipresente açúcar, que um dia decidi abandonar. Mas creiam sou um cara normal. Cometo muitos outros pecados. Adoro doces, todos. Minha questão era com o refinado, esse bendito pó branco que sempre dão um jeito de deixar ali à nossa disposição. Não que o ocorrido fosse novidade.

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Ao longo do tempo me acostumei a receber esse tipo de aviso. Inclusive dos amigos que ao partilhar comigo um momento desses vira e mexe me questionam sobre esse hábito considerado, pelo que sinto na voz e nos comentários, mais do que esquisito, corajoso. Isso mesmo, há nas observações feitas um tom que faz supor que tomar café sem açúcar é para os valentes.

Bom, tudo isso me veio à cabeça depois de ler aqui neste espaço na semana passada o artigo do meu amigo José Petit Rodrigues, que eu conheço bem antes do Petit. A afinidade com o tema não me espanta, pois devo confessar pra vocês que ela é tamanha que o Zé é a única pessoa à qual delego sem preocupação a tarefa de escolher os vinhos que vou tomar. E devo dizer que, impressionantemente, desde que essa pandemia começou e tenho feito a ele pedidos com esse nível de intimidade não houve bola que batesse na trave. E mais, quando ele diz algo do tipo esse está no ponto, chego a concordar tanto com o veredicto que a coisa parece beirar a hipnose. Não, não trilhei esse caminho de esquisitices à toa.

Em determinado momento da vida começaram a aparecer no esmalte de meus dentes pequenas manchas brancas. No consultório dentário as mesmas foram prontamente identificadas como descalcificações. Vale inocentar o açúcar até onde é possível. Existia ali uma combinação do carboidrato com o uso meio indiscriminado de antibióticos. Um modus operandi da época para tratar infecções de garganta que tive aos montes quando moleque. Mas não foi só isso. Deu-se aí, pra usar um termo de entendidos em vinho e comida, uma harmonização – ou desarmonização – com a literatura.

A preocupação com o diagnóstico foi imediata e quando peguntei ao dentista pela cura ele foi logo dizendo que pra coisas do tipo não existia. Mas em seguida me disse que o mais eficaz seria abolir o açúcar. Acontece que o diagnóstico se deu justamente no momento em que tinha sobre a cabeceira um livro chamado Suggar Blues, escrito por William Dufty, tremendo sucesso na época. Uma obra pioneira nesse segmento. Boa praça, Dufty tinha se inspirado na macrobiótica e abandonado o açúcar, a carne, e abraçado de vez os grãos integrais. Um cara muito à frente do tempo dele como dá pra notar. Um livro repleto de boas informações e detalhes históricos.

Não virei macrobiótico, nem um ativista da saúde como era a mulher de Dufty. O que posso dizer de verdade é que essa propensão a abandonar o açúcar recebeu o empurrão que faltava e me fez ver – melhor seria dizer sentir – o quanto ele padronizava o sabor de tudo. O quanto matava meu paladar. Afinal o açúcar, como a obra destaca, está em tudo, do pão ao cigarro. E a vivência me fez perceber também que o mesmo ocorre com relação aos temperos citados pelo Zé.

Como não sou santo aproveito para confessar que se minha relação com o açúcar é bem resolvida, com o sal é destemperada. Mas tenho sobre ele minhas teorias, sobre as quais poderemos falar numa outra oportunidade. Eu até como aquele tomate solo como disse o Zé, mas bem salgadinho. E aos interessados nos temas deixo uma outra dica. O livro de Mark Kurlasnky intitulado: Sal – uma história do mundo.

Enfim, já escrevi demais. Espero que tenham achado estas linhas saborosas. E no caso de não se considerarem preparados para se livrar de qualquer dependência do tipo, lembrem do que disse certa vez um escritor do qual infelizmente agora não recordo o nome. Entre a embriaguez e a sobriedade há um sem fim de nuances e muitas delas me interessam. Talvez o mesmo possa ser dito sobre o doce e o amargo. Que por sinal, é o título de uma música do Secos e Molhados das mais lindas, e que sempre adorei, como sal.

(*) Vladir Lemos é jornalista e diretor de Jornalismo Esportivo da TV Cultura (SP)

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